Logotipo

Blog do Michael

Vivendo no Cruzamento: A Cosmovisão Cristã em um Mundo de Narrativas Conflitantes

Resenha do livro Introdução à Cosmovisão Cristã


Michael W. Goheen (PhD, Universidade de Utrecht) é professor e pastor canadense e uma das maiores autoridades no mundo em missiologia. Cresceu em uma igreja batista a qual ele é grato pela tradição vivenciada que o levou a ter compromisso com a leitura das Escrituras, oração e o evangelismo. Foi nessa igreja que ele aprendeu a importância da santidade e da moralidade na vida pessoal e a valorizar a relação pessoal que temos com Jesus.

Entretanto, Goheen começou a perceber que Jesus pregava um evangelho do Reino e que Deus está restaurando seu domínio sobre toda a vida humana em Jesus e pelo Espírito. Isso significa que o evangelho busca alcançar a vida humana em sua totalidade.

Durante seus estudos de doutorado sobre a obra de Lesslie Newbigin, um dos maiores missiólogos do século XX, Michael percebeu que ele e Newbigin partilhavam as mesmas convicções, e as novas críticas e ênfases que Newbigin tinha foram muito importantes para o desenvolvimento de sua cosmovisão.

Michael divide seu tempo como diretor de educação teológica e pesquisador residente no Missional Training Center em Phoenix (Arizona, EUA) e professor de Missiologia no Covenant Theological Seminary em St. Louis (Missouri, EUA).

Craig G. Bartholomew (PhD. Universidade de Bristol) é co-autor deste livro. Ele nasceu na África do Sul na época do apartheid, que foi um regime de segregação racial que acometeu o país. Craig frequentou escola só para brancos, morou em bairro só para brancos e teve todas as “regalias” que apenas os sul-africanos brancos podiam ter.

Foi em uma faculdade teológica na Cidade do Cabo que ele aprendeu sobre a teologia reformada e teve contato com o pensamento e cosmovisão de Francis Schaeffer, o que o levou a uma perigosa conclusão, considerando o contexto em que ele vivia: Ele percebeu que o evangelho é uma cosmovisão e deve ser aplicado a todos os aspectos da vida, incluindo a política.

Sob influência de seus amigos kuyperianos, Craig começa a ver a importância da filosofia para a produção acadêmica cristã e isso o levou a Toronto, para estudos filosóficos, e depois ao Reino Unido, onde concluiu seu doutorado. Ele acredita que a cosmovisão cristã desperta o interesse por tudo. Craig é professor da cátedra H. Evan Runner de Religião e Filosofia na Redeemer University College. É também coautor, juntamente com Michael Goheen, de The drama of Scripture.

Perspectiva teórica

Com este livro, os autores pretenderam fornecer um material introdutório acerca do tema principal: a cosmovisão cristã. O maior interesse deles é enfatizar o evangelho de modo a apontar para a missão cultural da igreja a partir do conhecimento acerca da cosmovisão. Assim, cada leitor vai aprender a relacionar a própria fé com cada parte da vida e da criação de Deus, vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea.

Michael e Craig mostram como é importante entender a cosmovisão da sociedade e perceber a que distância essa cosmovisão está da história da redenção que Deus está graciosamente conduzindo.

A estrutura do livro

O livro é dividido em nove capítulos.

Principais teses desenvolvidas pelos autores

O livro começa com a ideia de que o Rei divino está voltando para retomar o seu reino. Tudo na História tem relação com esse fato. Tudo começa com o evangelho do Reino. Portanto, a Bíblia é apresentada como a verdadeira narrativa universal. O evangelho é a verdade pública. Para os autores, Jesus afirma que o estabelecimento do reino de Deus é o principal objetivo da história do mundo.

Com isso, conclui-se que essa narrativa deve moldar nossa vida e a maneira como lidamos com missões. A igreja procura moldar sua vida com base na narrativa bíblica de modo que sua missão é tornar conhecido o Reino de Deus. Assim, a igreja deve viver na intersecção entre duas narrativas: a narrativa bíblica e a narrativa que molda a cultura como um todo.

O capítulo 2 busca responder à pergunta “O que é Cosmovisão?”. Para isso, os autores apresentam uma breve história do conceito de cosmovisão e também a definição do termo. A partir daí, várias linhas de pensamentos são apresentadas, de modo que o objetivo de responder à pergunta inicial vai sendo alcançado por meio do desenvolvimento dessas ideias.

Como conseguinte, para os autores, “cosmovisão é uma enunciação das crenças básicas embutidas em uma grande narrativa compartilhada, as quais estão arraigadas em um compromisso de fé e dão forma e sentido à totalidade de nossa vida individual e coletiva.” (p. 52)

O capítulo 3 procura apresentar uma cosmovisão bíblica que, para ser fiel, começa confessando que existe um único Deus em três pessoas, de modo que tudo está centralizado em Jesus Cristo. Apenas por meio de uma correta compreensão sobre quem é Jesus Cristo será possível conceber uma cosmovisão bíblica. Jesus é Senhor, o que significa que Ele é o Deus do Antigo Testamento, o Criador e Sustentador do universo, o Regente da história, o Redentor e Juiz de todas as coisas.

A seguir, os autores falam sobre a Criação e o papel do ser humano – criado à imagem de Deus – em relação a ela. Falam também do pecado como um parasita da criação, o qual já foi completamente vencido na cruz e será totalmente erradicado pelo poder restaurador do evangelho.

Falando em restauração, temos então o início do capítulo 4, que continua com a temática do desenvolvimento do conceito da cosmovisão bíblica fiel. Michael e Bartholomew apresentam a salvação como sendo progressiva, restauradora e abrangente.

Os capítulos 5, 6 e 7 trazem à luz a cosmovisão que fundamenta a cultura ocidental. O capítulo 5, especificamente, fala das raízes da modernidade no período clássico, no evangelho e na mistura medieval de humanismo clássico com o evangelho, passando pelo credo humanista, a crença racionalista, bem como o desenvolvimento da narrativa cristã, fazendo uma análise crítica da maneira como o cristianismo ficou comprometido por conta de sua fusão com o humanismo grego.

O capítulo 6 trata do crescimento da modernidade na narrativa ocidental. Os autores buscam reconstruir a história do renascimento do humanismo da cultura pagã clássica e como ele cresceu até se tornar a “verdadeira luz do mundo”. O zelo pela liberdade e autonomia humanas e uma vida voltada para a criação não humana são apresentados como princípios fundamentais do humanismo renascentista, até chegar no conflito entre a fé iluminista e o evangelho.

A tarefa do capítulo 7 é examinar “o que está acontecendo na cultura ocidental de hoje, procurando entender como esses acontecimentos estão relacionados com as crenças religiosas que impulsionam nossa cultura.” (p. 164). Para tanto, quatro sinais de nosso tempo são apresentados: [1] A pós-modernidade, [2] o consumismo e globalização, [3] o renascimento do cristianismo e [4] o ressurgimento do islamismo. A conclusão é que a igreja é chamada a viver na intersecção do drama das Escrituras com as narrativas de nossa cultura.

Como, então, devemos viver nessa intersecção? Como um cristão pode permanecer fiel à narrativa bíblica ao mesmo tempo que vive em uma cultura que foi moldada por uma narrativa diferente? É a esta pergunta que o capítulo 8 busca responder.

A resposta parte de duas verdades apresentadas ao longo do livro: Jesus é Senhor e o propósito de Deus na salvação é restaurar a totalidade da vida da humanidade no contexto de uma criação renovada. Portanto, os cristãos devem viver conscientes de que estão no mundo, mas não são do mundo, tendo um envolvimento cultural por meio de uma visão abrangente e participação crítica.

Por fim, o capítulo 9 traz um resumo de ideias com ótimos exemplos de como a vida pode acontecer nessa intersecção nos negócios, na política, nos esportes, nas artes, no mundo acadêmico e na educação, sempre lembrando que somos chamados para ser participantes críticos de nossa cultura. Isso significa que devemos estar envolvidos culturalmente, como participantes, mas não envolvidos com a cultura sem uma distância crítica dos preceitos nos quais a cultura moderna é fundamentada.

Depois de encerrar o livro, os autores procuram dar uma palavra pastoral de encorajamento, dizendo que não estamos sozinhos nessa tarefa. Nosso sustento vem de Deus, por meio de uma espiritualidade fecunda e vigorosa. Não dá para sermos boas testemunhas sem leitura da Palavra, oração, meditação e comunhão. Devemos ser fiéis ao evangelho, sabendo que todo trabalho de redenção pertence a Deus e, nesse quesito, o nosso trabalho é descansar nEle.

Minha opinião

Não tenho dúvidas que os autores conseguiram alcançar o objetivo proposto para esta obra. Este livro de fato é uma introdução, mas seu conteúdo sobre a cosmovisão cristã é consideravelmente denso, abrangendo pontos conceituais, históricos e filosóficos que são fundamentais para a reflexão e desenvolvimento dos cristãos hoje.

Apesar de não ter o objetivo de esgotar o assunto e falar de um tema já bem conhecido e tratado por outros autores, esta obra tem, sim, sua singularidade por apresentar não apenas a cosmovisão cristã, mas a cosmovisão bíblica, e faz isso trazendo suas definições de maneira precisa, profunda e esclarecedora.

Certamente, o livro Introdução à Cosmovisão Cristã é proveitoso em contexto ecumênico, mas deve ser, principalmente, apreciado por todo o povo de Deus. Afinal, todos fomos chamados a viver a vida nessa intersecção entre a visão bíblica e a visão moderna. Quanto mais preparados estivermos para lidar com os desafios práticos que esta tarefa demanda, mais capacitados estaremos para fazermos da missão de Deus a nossa missão, mantendo a nossa esperança firme e inabalável.

#vida cristã