Do Tubo ao 4K: Por que os Reformadores Insistiam nas Línguas Originais da Bíblia
O texto a seguir é um trecho do livro E Deus Falou Na Língua dos Homens, de Paulo Won.
Victor Fontana fez uma comparação que achei bem útil e parafraseio aqui: conhecer as línguas originais da Bíblia, a saber, o hebraico, aramaico e grego (e por que não o latim?) é como assistir a um filme em um aparelho de televisão de última geração. É claro que o conhecimento técnico dessas línguas não é conditio sine qua non para ler e compreender o texto bíblico que nos conduz ao conhecimento do Deus Trino. Mas ler a Bíblia no vernáculo seria como assistir ao mesmo filme em uma televisão de tubo. As imagens na TV digital em alta definição e a TV analógica são as mesmas, recebidas por sinais eletromagnéticos. Entretanto, as TVs digitais nos permitem atentar para detalhes que, em uma TV analógica, seria impossível localizar. Talvez seja essa a razão da pergunta que me dirigem constantemente: Qual é a necessidade de se estudar as línguas originais dentro de um mundo tão complexo e dentro de realidades ministeriais tão atarefadas?
Para responder a essa questão, recorro a Martinho Lutero (1483-1546), Lutero foi um homem de seu tempo. O espírito do humanismo e do resgate dos padrões clássicos estava varrendo a Europa. O lema ad fontes foi uma das principais causas da redescoberta do texto bíblico não somente pelo monge alemão, mas também por João Calvino (1509-1564), Úlrico Zuínglio (1484-1531) e tantos outros. Voltar às fontes significou, dentro do contexto do estudo bíblico, retornar às línguas originais em detrimento do latim. Nesse sentido, Lutero nos ensina:
E tenha certeza de que não preservaremos o evangelho por muito tempo sem as línguas [originais]. As línguas são a bainha em que esta espada do Espírito está contida; eles são o cesto em que joia está consagrada; são o vaso em que este vinho é guardado; eles são a despensa na qual esse alimento é armazenado; e, como o próprio evangelho aponta, eles são as cestas nas quais são mantidos esses pães, peixes e fragmentos. [...] Por esse motivo, até os próprios apóstolos consideraram necessário estabelecer o Novo Testamento e mantê-lo firme na língua grega, sem dúvida para preservá-lo para nós são e salvo como em uma arca sagrada. [...] Portanto, é inevitável que, a menos que as línguas permaneçam, o evangelho finalmente perecerá."
Calvino, reformador genebrino, também estava especialmente preocupado com a alegorização desenfreada praticada dentro do catolicismo da época. Para ele, o principal antídoto era o estudo aprofundado das línguas originais.
Este erro [da alegoria] tem sido a fonte de muitos males. Não só abriu o caminho para a adulteração do significado natural das Escrituras, mas também criou ousadia em considerar a alegorização como a principal virtude exegética. Assim, muitos dos antigos sem nenhuma restrição jogavam todo tipo de jogo com a sagrada Palavra de Deus, como se estivessem jogando uma bola para lá e para cá. Também deu aos hereges a chance de arremessar a Igreja numa turbulência, pois quando é aceita a prática de alguém interpretar qualquer passagem da maneira que desejar, qualquer louca ideia, por mais absurda ou monstruosa que seja, poderia ser introduzida sob o pretexto de alegoria. Até os homens bons se empolgavam com o gosto equivocado por alegorias, em formular um grande número de opiniões perversas.
Faço minhas as palavras dos reformadores.